Potencial Alergênico do Propilenoglicol
O propileno glicol pertence a uma classe de compostos chamados de glicóis de origem não natural, sendo produzido sinteticamente através de reações químicas. É originado a partir da conversão de propeno ou óxido de propileno, sendo posteriormente hidrolisado, na presença de catalisadores, em propileno glicol.
O propileno glicol é muito utilizado em preparações cosméticas, sendo geralmente encontrado em produtos de higiene pessoal, em medicamentos de uso tópico e alimentos, devido ao fato de ser um bom solvente, que apresenta também boa ação hidratante, antisséptica e conservante. (1,2)
Hautarzt; 33(1): 12-4, 1982 Jan.
Dermatitis. 2009 Jan-Feb;20(1):14-20.
Devido às suas propriedades higroscópicas, o propileno glicol tem capacidade de absorver água e de agir como um hidratante (impedir o ressecamento da pele) e umectante (impedir o ressecamento da fórmula) em formulações cosméticas.
O propileno glicol apresenta também atividade antimicrobiana, sendo efetivo na preservação da formulação cosmética de contaminações microbiológicas.
Além de possuir boa solubilidade tanto para solventes polares quanto para apolares, atua na solubilização e dispersão de diversos ingredientes, tais como ativos, extratos vegetais, proteínas, vitaminas, aminoácidos, colágeno, conservantes, filtro-solares, essências, corantes, pigmentos, entre outros.
Propileno Glicol: Problemas Associados ao seu Uso
Embora o propileno glicol seja um veículo comumente utilizado em preparações cosméticas e com inúmeros benefícios, o mesmo é capaz de produzir dermatite de contato alérgica ou irritante.(2,3)
Dermatitis. 2009 Jan-Feb;20(1):14-20.
J Am Acad Dermatol; 24(1): 90-5, 1991 Jan.
Propileno Glicol é Capaz de Provocar Reação Alérgica Cutânea
Evidências Científicas
Em estudo realizado pelo Departamento de Dermatologia da Universidade de Oregon, 84 pacientes realizaram patch-test com propileno glicol puro. Doze destes pacientes apresentaram patch-test positivo, entre eles 5 tiveram reações alérgicas e 7 apresentaram reações irrititantes.(4)
Hautarzt; 33(1): 12-4, 1982 Jan.
Análise retrospectiva dos dados transversais compilados pela North American Contact Dermatitis Group (NACDG), no período de 1996 a 2006 mostrou que dos 23.359 pacientes, 810 (3,5%) tiveram reações alérgicas patch-test para propileno glicol (30%); 12,8% das reações foram de relevância clínica definida (reação positiva para produtos de uso pessoal contendo PG), 88,3% foram considerados estar atualmente relevantes (definida, provável ou possivelmente relevante) e 4,2% das reações foram relacionadas ao trabalho (reação ocupacional). As fontes mais comuns foram produtos de higiene pessoal e corticosteroides tópicos.(2)
Dermatitis. 2009 Jan-Feb;20(1):14-20.
Um estudo de revisão publicado nos Anais Brasileiro de Dermatologia mostrou que o veículo utilizado no aciclovir de uso tópico, propileno glicol, causa eritema vaginal e, portanto, é contraindicado para uso intravaginal.(5
An. Bras. Dermatol. 1988, 63(1): 19-23.
Alergia a corantes, conservantes e aditivos alimentares foi constatada em 65% dos pacientes com Síndrome da Boca Ardente tipo 3. Dentre as substâncias identificadas como maiores causadoras de dor na boca, encontra-se o propileno glicol.(6)
Rev. Bras. Otorrinolaringol, São Paulo, v. 72, n. 3, June 2006.
A via tópica, com aplicação de veículo à base de propileno glicol, pode causar irritação das mucosas.
O propileno glicol, assim como o etanol, possui como ação farmacológica principal deprimir o SNC. Entretanto, sua eliminação é mais lenta e suas ações são mais prolongadas.(7)
HARDMAN J.G.; LIMBIRD L.E.; MOLINOFF P.B.; RUDDON R.W.; GOODMAN G.A. GOODMAN & GILMAN: As bases farmacológicas da terapêutica. 9 ed. Alatama: Mcgraw-Hill interamericana. 1996.
Segundo um estudo publicado no periódico Dermatitis, dentre os alérgenos mais comumente encontrados em shampoos, o propileno glicol é o quinto mais prevalente nas dermatites de contato.(8)
Dermatitis; 20(2): 106-10, 2009 Mar-Apr.
Há sete veículos utilizados em corticoides de uso tópico, entre os quais, o propilenoglicol é o que apresenta maior potencial alérgeno.(9)
Dermatitis; 19(1): 38-42, 2008 Jan-Feb.
Cinquenta e quatro pacientes com úlceras de perna passadas ou presentes, com ou sem dermatite fizeram patch-test para a série padrão NACDG (North American Contact Dermatitis Group) e um vasto conjunto suplementar de 52 alérgenos. Quatorze porcento dos pacientes tiveram resultado patch-test positivo para propileno glicol.(10)
Arch Dermatol; 140(10): 1241-6, 2004 Oct.
Alguns pacientes que fazem uso de solução tópica de minoxidil apresentam prurido e descamação do couro cabeludo. Pacientes que sofrem de dermatite de contato alérgico fizeram o patch-test e verificou-se que o propileno glicol é o alérgeno na maioria dos casos, não o minoxidil.(11)
J Am Acad Dermatol; 46(2): 309-12, 2002 Feb.
Danos Hepáticos e Renais pelo Propileno glicol
Propileno glicol é reconhecido como uma neurotoxina pelo National Institute for Occupational Health and Safety dos Estados Unidos. É conhecido por causar dermatite de contato, danos renais e hepáticos. É amplamente utilizado como umectante em formulações cosméticas no lugar de glicerina, pois apresenta menos custo e é mais facilmente absorvido através da pele.(12)
Agency for Toxic Substances and Disease Registry MINIMAL RISK LEVELS (MRLs)
Conclusão
Diante de tantas evidências de que a presença de propileno glicol em formulações cosméticas causa dermatite de contato, cabe a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regulamentar o uso dessa substância em produtos cosméticos, prevenindo o aparecimento de reações alérgicas decorrentes do seu uso. E também, se faz necessário um trabalho de cosmetovigilância mais efetivo, desta forma será documentado, investigado e analisado se a ocorrência das reações adversas está relacionada com produto utilizado, tornando a utilização de cosméticos mais seguro.
Referências Bibliográficas
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